publicado em 17 de junho de 2025
Respire fundo antes de começar.
Eu não sou de direita.
Também não sou fã do Réu Lins. Não apoio suas piadas de gosto duvidoso, recheadas de racismo e homofobia.
E não acredito em liberdade de expressão irrestrita mais que em meritocracia.
Digo isso porque até o final desse texto, algum abençoado vai me eleger presidente do fã-clube do Léo. Se você duvida, provavelmente será você.
Vamos lá.
Na semana retrasada, saiu a notícia da condenação do comediante a oito (!!!) anos de prisão pelo conteúdo do especial Perturbador.
Além da prisão, duas multas: uma equivalente a mil salários mínimos (ultrapassando sete dígitos) e outra de 300 mil reais.
Perturbador (o especial, não a notícia) foi gravado em 2022, em Curitiba. Em 2023, foi publicado no YouTube — e logo removido por conta das piadas escrotas, maldosas e/ou rasteiras. Sem juízo de valor: existe um público que gosta. Gosta tanto que paga ingresso para assistir e rir.
Mais ou menos na mesma época, Lins foi massacrado por uma piada sobre uma criança com hidrocefalia. Some a isso os processos com Thais Carla e seu alinhamento político — Lins virou a figura mais detestada do stand-up nacional. Pelo menos, aos olhos da esquerda. Mais ainda entre quem não consome stand-up comedy.
Beleza. Esse é o contexto.
Voltando à sentença.
Fiquei impressionado. Postei uma sequência de stories. Conectei com o caso do MC Poze, recém-libertado após acusação de apologia ao crime (sem falar no velho racismo nosso de todos os dias). Argumentei que são casos de censura e de controle sobre o que pode ou não ser dito na arte. Eu não acredito em limites na arte ou em gente querendo dizer o que pode ou não. Me processem, mas daí a virar criminoso por uma história, piada ou música… Deus me livre.
Pontuei: hoje é com um cara que fala merda e metade do Brasil odeia. Amanhã pode ser com alguém que a outra metade odeia.
Eu não apoiei o Léo Lins.
Eu não apoio o que ele diz no palco.
Eu não falei em “liberdade de expressão irrestrita”.
Usei, inclusive, um batidão carioca pra ilustrar meu ponto. Eu não gosto de recorrer a batidão carioca para discutir, mas não adiantou.
Piorou, na verdade. Afinal, eu sou branco e hétero (como muitos comentários fizeram questão de observar, como se eu não tivesse que me olhar no espelho todos os dias para saber quem sou e os riscos do que falo). De repente, eu era “mais um homem branco arrombado passando pano para racista continuar cometendo crimes disfarçados de arte”.
Aí pronto. Virei presidente do fã-clube do Léo Lins.
Recebi mensagens de desconhecidos. Disseram que eu só queria aparecer. Que queria lacrar.
Lacrar.
A esquerda me ofendendo com vocabulário da direita. Isso foi pesado.
Despejaram sobre mim questões pessoais, exame de miopia atrasado, trauma de ENEM, além de críticas válidas, com bons argumentos.
Fui acolhedor com quem quis conversar.
“Você tem razão nisso, mas ainda acho que é censura.”
“Concordo com você, mas isso abre precedentes perigosos.”
Só que não adianta dialogar com quem quer apenas repetir seu ponto — com pedras na mão.
A situação piora quando propor uma reflexão vira sinônimo de apoiar um cara que só foi defendido pela direita. Quase deletei meus stories quando a Nicole Chupetinha se manifestou — defendendo o Léo e a famigerada “liberdade de expressão”.
Achei que no grupo do Buteco seria diferente. Quer dizer… toda hora alguém puxava algum vídeo chamando o Réu Lins de racista e talvez isso fosse um tipo de recado bem claro sobre o que pensavam da minha defesa da arte. Bem, pelo menos lá ninguém demonstrou dificuldade cognitiva em entender que eu não concordei com o Léo. Pelo menos, é o que acho.
(Mentira. O Joubert — fã de piada ácida — me mandou calar a boca e parar de defender “o criminoso condenado”. Mas o Joubert não lê o que eu escrevo. Então, tudo certo.)
Malditos comunistas.
Iniciaram um impeachment pra me expulsar do grupo que eu criei.
Ninguém concordou comigo. “Crime é crime, ponto final.”
“Queimem o fascista.”
Lembraram até do tapa do Will Smith no Chris Rock.
Apoiaram. “Fez o que todo corno descontrolado faz.”
Ignoraram o impacto negativo na carreira do Smith.
Claramente, esse não é um grupo que consome stand-up.
Alguém perguntou se tinham visto algo recente do Smith. Aproveitei a deixa e soltei uma fala do Chris Rock sobre Emancipação:
“Quero ver esse filme só pelas partes em que o Will Smith é chicoteado.”
Eu sei. Não facilito. Ou você gosta de mim do jeitinho que sou, ou me transforma no maior fã do Léo Lins.
A partir disso, comecei a pensar: a comédia não é respeitada como arte.
Existe uma ignorância — consciente ou não — que resume o stand-up a um CPF com microfone. Isso diz muito sobre a falta de entendimento do público sobre negócios. Reduzir o comediante a um CPF e ignorar que há um show, uma persona, uma estrutura de produção por trás… é apenas esforço para reforçar o próprio argumento fácil de que comédia é só ofensa com CNPJ. Quer dizer, acho que algumas pessoas nem sabem que pode ser um negócio.
Aí fui ler sobre o que diz a lei (Sim, fora do tribunal das redes sociais)
A lei me espancou.
Independente da minha opinião do contexto artístico (que, aliás, é compartilhada por muita gente sensata que não ousa se expor), a verdade é:
A lei brasileira agora criminaliza certos tipos de piada — mesmo no contexto artístico que eu defendo.
Vivendo e aprendendo.
A discussão pode migrar pra “não concordo com a lei”, mas prefiro poupar o desgaste de abrir mais uma conversa sensível — e ser acusado de um monte de coisa sem sentido de novo.
Pensei em não publicar isso aqui.
Mas decidi que seria bom oficializar:
Menos ignorância sobre a lei.
Mais consciência sobre comédia.
E uma pitada de advogado kamikaze na defesa da arte.
Talvez eu não esteja sozinho.
E aí? Depois dessa, ainda tenho seu voto pro fã-clube do Léo Lins? Ou já posso resgatar minha carteirinha de comunista? Prometo que vou esconder meu celular na próxima polêmica e não opinar.
(Mentira)
ps: precisei usar o Gepeto para um apoio técnico aqui. E azar se você é contra as máquinas.
