Édipo (Exercício da paternidade: os frutos do filho adotado alimentam outras campanhas. Bastardo.)

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Lembra quando eu adotei um filho para chamar de meu? Ele fez que nem os dois filhos de Francisco. Cresceu, criou asas e quis voar.

Hoje vou contar como é que foi essa história.

Nesse momento, 90% das pessoas aqui devem lembrar de como se sentiram assistindo A Grande Aposta ou a cena da explicação dos investimentos em O Lobo de Wall Street. Queria dizer que é possível tornar esse assunto interessante, mas eu não falo mentira.

Em 20 de maio troquei de setor (falei um pouco disso na edição anterior da newsletter) e recebi a missão de mapear o momento desse tal produto e retomar as vendas do abençoado.

Aqui, para o sucesso narrativo, preciso explicar que atuo com vendas de produtos digitais fazendo anúncios que te enchem o saco no Instagram. É. Se você tinha dúvida se me odiava, agora tem certeza.

Fiz o estudo. Fiz o desenho estratégico. Montei a estrutura tática. Participei do operacional de forma ativa (delícia) e passiva (aqui não). Demorei um mês. Porque meu cu é largo — e enfiaram tudo que podiam dentro dele. Projeto, demanda, planilha, call. Foi uma suruba organizacional sem consentimento. Mas com aval do RH, claro.

Mas como tempo é dinheiro, e vacinado que sou contra a síndrome da novinha, dei atenção para os novos filhos adotados sem deixar de lado o primogênito. Um mês depois de recebida a tarefa e com a lembrança viva do “razões comportamentais”encarnei o espírito do tenista na firma. Assumi o protagonismo e iniciei várias ações de uma vez.

Vale destacar essa lição. Pessoas parecidas comigo, que planejam demais e não são vaidosas de querer ser o centro das atenções, sofrem com a falta de iniciativa real. Eu sempre gostei mais da revista VIP que da Playboy. Sou mais de construir do que consumir, sabe?

A gente cria uma dificuldade invisível para procrastinar a realização, como se fosse grande coisa. A grande coisa é toda a parte que eu faço antes da execução. Me chamam de capitalista, mas eu sou a porra de um peão de obras sem coragem de descontar o bilhete da loteria premiado. Valorizar demais o operacional é um peso gigante que carrego.

Deve ser por isso que não sou reconhecido financeiramente, inclusive.

O ponto é que mudei o padrão. Que loucura seria querer resultados diferentes fazendo as mesmas ações, não é mesmo? Fiz ações que dependiam de aprovação de outros setores, mas fodam-se os outros setores. Se reclamarem, eu peço desculpas. (E faço de novo se continuarem a não responder no prazo.)

Não posso dar detalhes técnicos, claro, mas a ação principal que executei envolveu usar o que a gente já tinha e não sabia usar. Tipo eu com meu pinto. Já tinha feito essa mesma campanha no passado e sempre gerou resultado. Quem tem autoridade, cria desejo e expectativa no público. E essas pessoas só precisam do empurrão certo para passarem o cartão de crédito.

Fiquei feliz, mas não vamos parar por aí. Esse filho ainda exige atenção, mesmo achando que já sabe voar sozinho. E os outros bastardos que me chamam de pai, também precisam de atenção. Mas é sempre uma prova de competência gerar dinheiro sem usar dinheiro. Pena que não é uma ação que dê para repetir frequentemente.

Enfim. Mês que vem conseguirei falar desse filho e do outro, que tentou arrancar a minha cabeça uma vez.

Ah.

A parte mais doida de ver isso acontecendo é que me vi obrigado a pegar um outro projeto paralelo exatamente nesse mesmo período.

Não basta ser casado, ter um trabalho fixo, ter meus nove sites para gerenciar e produzir a maioria do conteúdo, querer escrever a porra de um livro novo, manter uma newsletter semanal. Agora eu tenho uma segunda ocupação. E só aceitei pela combinação de fatores: envolvimento de um player gigante, retomar parceria com uma colega que gosto muito, misturar duas coisas que amo muito e PORQUE PRECISO PAGAR MINHAS CONTAS.

Agora sou a própria Hermione em O Prisioneiro de Azkaban e o tempo é minha putinha.

Essa oportunidade foi uma forma do mundo me obrigar a enxergar.

Serei burro pra um caralho se continuar dando ouvidos àquela voz interior que insiste em dizer que não sou bom o suficiente — mesmo com tantas evidências do contrário. Exceto pela parte de não saber me vender. Essa é real mesmo.

A gente precisa amadurecer. Mesmo que doa. É perder para ganhar. Ou se livrar para ter alívio. Depende da perspectiva.

Tô confiante em dar os passos para esse tal amadurecimento e engolir sapo de deixar minhas convicções e autenticidade de lado. Amo isso, mas é como defender partido político ou causas sociais: dependendo do que você quer para a sua vida, você precisa se envolver de verdade com o que vai pagar seu boleto.

Não é desistir. É só aceitar que, às vezes, crescer dói. E pagar boleto com dignidade é, por enquanto, o ato mais revolucionário que posso oferecer. Prefiro deixar pra mudar o mundo na próxima reencarnação.

P.S. Que meus guias me protejam, que Exu leve o que não é meu, e que quem ler isso com má intenção tropece  o suficiente pra aprender a andar direito sem ser uma mula manca.