Vamos dar uma pausa no conteúdo técnico, coach caranguejo, ensaio para Filipa, kamikaze sincericida etc. Quero falar de algo importante.
Discussões em grupos de WhatsApp
Recentemente acompanhamos a condenação à prisão do Léo Lins. Como eu consumo standup comedy e escrevo umas coisas para tirar as pessoas do sério, considerei importante uma exposição do meu ponto de vista.
Afinal, eu de fato assisti ao conteúdo do Lins. Lugar de fala que chama, acho. Imagina só analisar e culpar um artista pelo trabalho que eu sequer conheço? Ainda bem que 98% da minha timeline também consome standup comedy e não avalia artista a partir da repetição de pontos de vista de quem viu. Supostamente, pelo menos.
Me expressei no Instagram. Me chamaram de pedófilo, machista e homofóbico. Falaram até que eu queria lacrar (!!!). Percebi que não era o ambiente adequado para discordar do pedido de prisão. Decidi usar o grupo de WhatsApp do Cinema de Buteco.
Porra. Eu criei o site. Eu criei o grupo. Claro que lá o papo poderia ser menos raso, né? Claro…
Prometi para mim mesmo que não mencionaria mais essa história. Cismaram em ver apenas um ponto da situação. E se eles começarem a fuçar demais, vão querer cancelar o Anthony Jeselnik ou o Dave Chapelle (eita, esse já foi!) ou o Louis C.K. (esse também já foi). Jeselnik faz o tipo de piada que o Lins poderia fazer, se conseguisse abandonar a 5ª série.
Aí veio uma matéria afirmando que o Ed Motta chamou os brasileiros de caipira. Eu fiz o que é ensinado no jornalismo, né? Fui lá comprovar. Credo acreditar em grupo de WhatsApp ou qualquer perfil de Instagram dizendo que alguém precisa ser preso porque fez isso ou aquilo. Deixo isso para o pessoal que tá preso em Brasília por causa do 8 de janeiro. O que o Motta falou foi que a atitude de cancelar é coisa de jeca. Não foi ofensa direta. Mas o que importa quando uns e outros decidem que você tá enterrado digitalmente?
Deveria ter aprendido a lição.
Não me manifestei no Instagram… mas fui no grupo de WhatsApp do Cinema de Buteco.
Por quê, Deus?
Sabe quando você escuta alguém falando para que não coloque a cabeça para o lado de fora do carro (a ignorância é uma benção. Quero ver alguém fazer isso depois de ver Hereditário) e você coloca mesmo assim? Falam para você não olhar para baixo quando está no topo de um precipício e você olha? Falam para você usar máscara e ficar em casa, mas você decide montar uma feira na rua? Pois é.
Sou eu com grupos de WhatsApp. Preciso discutir. Preciso ler como as pessoas vão discordar de mim. Quais palavras elas vão usar. Quanto tempo vão manter a imagem antes de se tornarem o que condenam. Como lidam com minhas contradições e provocações.
Sou a porra do capeta verde dos grupos de WhatsApp. É meu traço tóxico — OK. É um dos vários traços tóxicos. E isso me diverte na mesma proporção que me ensina sobre pessoas. A treta no grupo, não a parte de ter um tipo de psicopatia patológica.
Queria conseguir controlar o ímpeto de encontrar algo que acredito e posso defender quando a maioria tomou partido. Eu preciso ser o cara do contra. Se eu não encontrar nada, beleza, eu aceito ser invisível na orgia da zona de conforto.
Mas fora isso…
Eu sou o pau que jorra ardido no olho de quem tá lendo.
Qual a porra do sentido de estar em um ambiente calmo e confortável em que ninguém te desafia? Antes eu era mais gratuito na provocação (já me disseram que é culpa da Casa 4 em aquário; ou seja, a astrologia me dá o álibi para ser babaca), mas hoje só faço quando realmente vejo sentido em discutir.
Mas o problema…
O problema, como disse meu amigo Lucas Paio, é achar que existe chance de ter uma discussão de qualidade em um ambiente de 50 pessoas. Vai existir um ou outro pensamento crítico, mas a maioria tá cagando e andando.
Se não vou ter o que busco, preciso enfiar o meu senso de responsabilidade de referência e influenciador (entenda: como dono de um projeto/grupo, eu não sou omisso de achar tudo bem não criar reflexões no meu ambiente) dentro do meu cu largo.
Não crio discussões para provar que estou certo. É mais para lembrar as pessoas que existe o cinza entre o preto e o branco. Que nada é simples de encaixar em uma caixa, especialmente envolvendo pessoas. A intenção é boa, tenho certeza, mas o inferno está cheio de pessoas que pensaram parecido comigo alguma vez.
Quando um grupo de cinema vira um espaço em que criticar abertamente a imposição de filmes dublados nos cinemas divide opiniões, a gente precisa refletir se ainda é o templo adequado para buscar conforto no desconforto. Se a reflexão é substituída apenas pelo “você está errado” (para dizer o mínimo, hahaha) e a discussão fica a um passo da briga, é o momento de aceitar nossa insignificância e a desapropriação intelectual do nosso lar.
Dito isso, eu só vou entrar em grupo de direitista agora. Esquerda se leva a sério demais e não acredita na terra-plana. É provado. Alguém no Instagram falou.
