Me deixe saber o que você faria.
Sexta-feira, 18 de abril. Feriado. Dizem que é santo, mas nunca acreditei que esse dia da semana era o mais adequado para esse feriado. 20h.
Enquanto luto para avançar no meu novo projeto (o vem aí que pode ou não se chamar Filipa; já falei dele aqui e aqui), o interfone do apartamento toca. Uma voz de jovem atrevida me pede ajuda. “Não estou conseguindo falar com o sr. Marcos. Pode bater lá e ver se ele está em casa?”.
Cacete. Eu odeio ser interrompido. Mas fui lá no vizinho mesmo assim. Bati campainha. Uma. Duas. Três vezes. Nada. Desci as escadas e fui abrir para a moça, que estava na companhia de outras três com o mesmo ar de rebeldia, independência e desprezo de quem tem seus 20 anos.
Subimos e elas ficaram lá. Tocando campainha. Batendo na porta. Gritando pelo vizinho. Tomei um pouco de água, certo de que poderia continuar meu trabalho até a minha campainha tocar.
Essas garotas não têm limites. Já ajudei, cara. Abri a porta para vocês entrarem. O que querem que eu faça agora?
Abri a porta e a “líder” pediu o meu celular emprestado para ligar pro Marcos. Eu mesmo liguei. Nada dele atender. Elas pediram o telefone para falar com outra pessoa. Fiz a minha expressão de indignação, mas emprestei mesmo assim. A mais nervosa do grupo seguia batendo a campainha e chamando pelo Marcos. Outra, a única que demonstrou certa preocupação, disse que o carro dele estava todo aberto na garagem. Perguntou se eu não ia fazer nada, se não estava preocupado também. A mais debochada falou que ele devia ter entornado umas e apagado. Perguntou se ele não estaria na festa que rolava no segundo andar com um barulho ensurdecedor.
Comecei a fazer perguntas.
Quando falaram com ele pela última vez? Ele estava esperando vocês? Vocês tem certeza de que ele está mesmo em casa?
A mais preocupada mostrou que a chave estava na fechadura. Ou seja, trancou a tetra-chave por dentro. As outras queriam dar o fora logo. Com o meu telefone ligaram para outra abençoada que pediu o Uber para que fossem embora. Uma troca de gentilezas inspiradora entre elas, inclusive. Jovens se ofendem e se tratam com impaciência demais. Feliz sou eu de já ter passado dessa fase.
Foram embora. Eu estava com fome depois de quase uma hora desde a chegada delas até desistirem. Meu plano de escrever tinha ficado de lado. Mas o sentimento da menina preocupada passou pra mim. Que porra aconteceu com o Marcos?
Como é um senhor com alguns problemas de saúde que mora sozinho, eu estranhei o fato dele não abrir a porta. Toquei interfone na casa dele. Bati a campainha. Bati na porta. Nada. Fui até os vizinhos dos andares de cima e pedi que olhassem pela janela para ver se tinha alguma luz acesa na casa. Nada.
O vizinho disse que tinha visto o Marcos às 16h. Pedi para a síndica abrir a câmera, mas ela me respondeu que estava fora de casa. Quis perguntar se o celular dela era um Nokia 6120, mas precisava guardar meu deboche e descobrir o paradeiro do Marcos. O único vizinho disponível para me ajudar conseguiu o telefone do filho do Marcos.
Mandei mensagem explicando a situação. A treta é que o filho não mora em BH. Enquanto agilizava um chaveiro e um amigo para vir até o prédio, o Marcos JR. pediu que eu esmurrasse a porta. Pediu, porém, que eu tivesse cuidado. Afinal, o pai poderia se assustar, acordar desorientado e atirar em mim (o vizinho é militar aposentado e tem arma).
Munido de informações preciosas, agi como qualquer pessoa normal. Dei três porradas na porta. O pessoal do quarto andar ouviu. O pessoal da festa ouviu e entendeu como um convite para calarem a boca. Ouvi outras portas abrindo e fechando.
Nenhum disparo de arma de fogo. Nenhum sinal do Marcos. Avisei ao filho. Não demorou para o amigo do filho chegar e logo depois o chaveiro. O amigo ficou batendo e chamando o senhor Marcos. Uma ação inteligente que eu deveria ter considerado antes de tratar a porta como a porra da cara feia do meu ex-coordenador na Hotmart.
O chaveiro destravou a tetra-chave e abriu a casa em um passe de mágica. O amigo entrou chamando o senhor Marcos. Ele parecia apreensivo com o risco de realmente levar um pipoco. Meu único traço tóxico de preocupação foi ficar fora da linha de fogo da porta, depois que abrissem. Coitado do chaveiro que precisou entender nas entrelinhas e só depois do serviço pronto.
Felizmente, encontramos o vizinho. Apagado no quarto. Parece que ele realmente tinha bebido todas. Avisamos o filho e todos ficamos tranquilos. Levei o chaveiro e o amigo até a portaria, e encerramos a noite. Foi uma das coisas mais emocionantes dos meus últimos anos.
Penso que na nossa correria e preocupação com nossa própria vida/segurança, a maioria das pessoas poderia ter preferido não se envolver. Mas aqueles meninas atrevidas me deixaram preocupado. E o deboche de uma delas “ele nem é amigo do Marcos. Por que iria se preocupar?” me fez pensar.
Engraçado isso acontecer justamente em um feriado cristão. Logo com quem não se importa com religião ou entende o suficiente que o ambiente interfere na sua fé. É sempre irônico quando um budista não-praticante ser mais cristão que os crentes e católicos que querem mandar na vida das pessoas com seus preconceitos.
E essa foi uma forma de procrastinar escrevendo qualquer coisa, exceto meu livro novo. Obrigado pela companhia.
