Se você já leu qualquer coisa sobre escrita criativa, provavelmente já ouviu essa frase. Show, don’t tell. Mostre, não conte. É o conselho mais repetido em oficinas literárias, cursos de roteiro e fóruns de escritores do mundo inteiro.
É também o conselho mais mal aplicado.
Porque a maioria das explicações para dessa técnica são vagas ao ponto da inutilidade. “Não diga que o personagem está triste — mostre ele chorando.” Ok. Mas e quando o personagem não chora? E quando a tristeza é sutil, reprimida, disfarçada? E quando mostrar a cena inteira seria desperdiçar o ritmo da narrativa?
O Guia Definitivo de Escrita Criativa trata show, don’t tell como uma das técnicas centrais da escrita — e com razão. Mas dominar o princípio exige entender não apenas o que ele é, mas por que funciona, quando aplicar e — igualmente importante — quando não aplicar.
É exatamente isso que este artigo cobre.
O Que É Show, Don’t Tell de Verdade?
A tradução literal já cria confusão. “Mostrar” sugere descrição visual. “Contar” sugere narração. Mas o princípio não é sobre visual versus narração — é sobre algo mais fundamental.
Telling é quando o escritor entrega a interpretação pronta ao leitor. Diz o que sentir, o que concluir, o que o momento significa.
Showing é quando o escritor entrega os elementos brutos — ação, detalhe, diálogo, imagem — e deixa o leitor fazer a conexão sozinho.
A diferença não é técnica. É experiencial. Quando você conta, o leitor recebe informação. Quando você mostra, o leitor vive uma experiência.
E experiência cria conexão emocional de um jeito que informação não consegue.
Veja a diferença na prática:
Telling: “João estava nervoso antes da entrevista.”
Showing: “João checou o celular três vezes em dois minutos. Não tinha nenhuma mensagem nova. Ele sabia disso antes de checar.”
No primeiro caso, você recebeu um dado: João estava nervoso. No segundo, você sentiu o nervosismo — o comportamento compulsivo, a consciência dele sobre o próprio comportamento compulsivo. Você chegou à conclusão de nervosismo sozinho, e por isso ela tem mais peso.
Esse é o mecanismo central do princípio.
Por Que Funciona: A Psicologia por Trás do Princípio
Entender por que funciona ajuda a aplicar com mais inteligência.
Quando um leitor chega a uma conclusão por conta própria — mesmo que o escritor tenha orquestrado cada elemento para que ele chegasse exatamente àquela conclusão — ele sente que a conclusão é sua. Isso cria engajamento ativo. O leitor não está consumindo passivamente; está participando da construção de sentido.
Existe também o efeito de credibilidade. Quando você conta que um personagem é inteligente, o leitor aceita essa informação provisoriamente, mas não necessariamente acredita nela. Quando você mostra o personagem fazendo algo que demonstra inteligência, a credibilidade é construída através de evidência — exatamente como funciona no mundo real, onde julgamos as pessoas pelo que fazem, não pelo que outros dizem sobre elas.
E existe o fator imersão. Telling quebra o fluxo narrativo porque exige que o leitor saia da cena para receber um comentário do narrador. Showing mantém o leitor dentro da experiência da história.
Os Quatro Tipos de Telling (e Como Transformar Cada Um)
Telling não é uma coisa só. Aparece de formas diferentes, e cada uma tem uma abordagem específica de transformação.
Tipo 1: Telling de Emoção
É o mais comum e o mais discutido. O narrador nomeia diretamente o estado emocional do personagem.
Telling: “Marina estava com raiva.”
Showing: “Marina respondeu com três palavras. Depois disso, silêncio. O tipo de silêncio que ocupa espaço.”
A transformação aqui funciona mostrando o comportamento que a emoção produz — não necessariamente os sinais físicos óbvios (punhos cerrados, mandíbula tensionada), mas as manifestações específicas daquele personagem em particular. A raiva de Marina se manifesta em economia de palavras e num silêncio carregado. Outro personagem poderia gritar. A especificidade é o que cria vida.
Tipo 2: Telling de Caráter
O narrador diz ao leitor o que pensar sobre um personagem.
Telling: “Pedro era um homem generoso.”
Showing: “Pedro pediu a conta antes que alguém pudesse protestar. Quando o garçom trouxe o troco, ele deixou tudo na mesa e já estava na porta.”
Você não precisa dizer que Pedro é generoso. O comportamento específico — pagar antes que alguém proteste, deixar todo o troco — constrói a conclusão no leitor. E porque o leitor chegou lá sozinho, ele acredita nisso de um jeito que a declaração direta não conseguiria criar.
Tipo 3: Telling de Contexto
O narrador explica a situação em vez de deixar a situação se revelar.
Telling: “Eles tinham um relacionamento complicado cheio de tensão não resolvida.”
Showing: “Ela perguntou se ele queria café. Ele disse que não. Ela fez para ela. Quando ela voltou, havia duas xícaras na bandeja. Ela pôs uma na frente dele sem dizer nada. Ele bebeu.”
Toda a história do relacionamento — a tensão, o cuidado relutante, a comunicação que acontece apesar de tudo — está no comportamento. O leitor entende o relacionamento através da cena, não através de um resumo.
Tipo 4: Telling de Significado
O narrador explica o que uma cena ou momento significa, em vez de deixar o significado emergir.
Telling: “Aquele foi o momento em que ela percebeu que ainda o amava.”
Showing: A cena que precede essa conclusão — construída com os detalhes certos — faz o leitor chegar à conclusão junto com a personagem, ou até antes dela. O momento de percepção pode ser marcado por um detalhe físico (ela para no meio do que estava fazendo), por um pensamento fragmentado, por um comportamento inexplicável que o leitor entende antes da personagem.
Quando o narrador explica o significado depois de uma cena bem construída, ele está roubando do leitor o prazer de ter chegado lá.
As Ferramentas do Showing
Mostrar não é um mistério — tem técnicas específicas. Estas são as mais poderosas:
Detalhe Concreto e Específico
O detalhe vago não mostra nada. O detalhe concreto e específico revela tudo.
Vago: “O apartamento dela era bagunçado.”
Específico: “Havia três xícaras de café no criado-mudo, todas com diferentes níveis de abandono. A mais recente ainda tinha vapor.”
O detalhe específico cria a ilusão de uma vida inteira acontecendo fora da cena. O leitor completa o resto — a pessoa que começa um café, esquece, começa outro, esquece de novo. Isso diz mais sobre a personagem do que páginas de descrição genérica.
A regra prática: sempre que você escrever um detalhe descritivo, pergunte se ele poderia ser mais específico. Não “flores na janela” — que flores? Não “música no fundo” — que música, tocando em quê, em qual volume?
Comportamento em Vez de Declaração
Pessoas revelam quem são pelo que fazem, não pelo que dizem sobre si mesmas — e o mesmo vale para personagens.
Declaração: “Ele era controlador.”
Comportamento: “Ele reorganizou os talheres que ela tinha colocado na gaveta. Ela viu, mas não disse nada.”
O comportamento também revela a dinâmica entre personagens de uma forma que declarações não conseguem. Na segunda versão, há duas informações simultâneas: o comportamento controlador dele, e a dinâmica de poder estabelecida entre os dois.
Diálogo que Trabalha por Baixo
Pessoas raramente dizem o que realmente querem dizer. O que não é dito numa conversa frequentemente carrega mais peso do que o que é dito.
Telling via diálogo: “— Eu ainda estou com raiva de você pelo que aconteceu — disse ela.”
Showing via subtexto: “— Você vai querer um casaco — ela disse, sem olhar para ele. — Está frio lá fora.”
O cuidado relutante, a recusa de olhar diretamente, a frase sobre o casaco que é sobre muito mais do que o casaco — isso é subtexto. O leitor sente a tensão emocional da cena sem que ninguém precise nomeá-la.
Reação Física Específica do Personagem
Não os clichês físicos de emoção (coração acelerado, mãos suadas, nó na garganta) — as reações físicas específicas daquele personagem em aquela situação.
Cada pessoa manifesta emoções de forma diferente. Alguém que cresceu aprendendo a esconder sentimentos vai ter reações físicas de contenção — um silêncio ligeiramente longo antes de responder, uma postura que fica um pouco mais rígida. Alguém expansivo vai ter reações mais visíveis. A especificidade da reação física revela tanto a emoção quanto o personagem.
O Que o Personagem Nota
Já discutimos isso no contexto de estilo, mas aqui é igualmente poderoso como ferramenta de showing. O que um personagem escolhe perceber numa cena revela seu estado interno sem que você precise declará-lo.
Uma pessoa com medo nota saídas. Uma pessoa apaixonada nota detalhes específicos da pessoa amada que outros não notariam. Uma pessoa com culpa nota qualquer coisa que possa ser interpretada como acusação. O ponto de vista se torna showing quando os filtros perceptivos do personagem são visíveis na narração.
Quando NÃO Mostrar: A Parte que Ninguém Conta
Aqui está o que a maioria dos tutoriais ignora: telling tem usos legítimos e necessários. Escritores que levam “show, don’t tell” ao extremo produzem textos exaustivos — onde cada informação, por menor que seja, vira uma cena de três parágrafos.
Isso é tão problemático quanto o excesso de telling.
Use telling quando a informação é de passagem. Nem todo detalhe merece uma cena. Se você precisa que o leitor saiba que se passaram três semanas, “três semanas depois” é muito mais eficiente do que construir uma cena que comprove a passagem do tempo.
Use telling para controlar o ritmo. Depois de uma cena intensa e densa em showing, um parágrafo de telling pode funcionar como respiro — comprimindo tempo, avançando na narrativa, preparando o terreno para a próxima cena densa. O contraste entre showing e telling cria ritmo.
Use telling quando a informação é menos importante do que o que vem depois. Nem toda informação tem o mesmo peso narrativo. Detalhes de contexto que são necessários mas não centrais podem ser entregues eficientemente via telling, reservando o showing para os momentos que realmente importam.
Use telling quando o narrador tem uma voz forte e característica. Narradores em primeira pessoa com voz marcante frequentemente comentam sobre o que está acontecendo — e esse comentário é parte do prazer do texto. Eliminar todo o telling de um narrador vocal transforma uma voz rica numa câmera neutra.
A regra real não é “sempre mostre”. É: mostre o que importa, conte o que não importa tanto, e saiba a diferença.
Erros Comuns na Aplicação
Trocar um telling por outro
O erro mais frequente de quem está aprendendo o princípio. Em vez de telling de emoção, produz telling físico clichê.
Telling de emoção: “Ela estava nervosa.”
Telling físico: “Seu coração acelerou e suas mãos ficaram suadas.”
O segundo não é showing — é um clichê de showing. Coração acelerado e mãos suadas são os equivalentes físicos de “estava nervosa”. O leitor já sabe que esses sinais físicos equivalem a nervosismo, então a informação entregue é idêntica, apenas com mais palavras.
Showing real exige especificidade que vai além dos clichês físicos estabelecidos.
Over-showing: mostrar demais o que não precisa ser mostrado
Cada momento de showing tem um custo: tempo de leitura e atenção do leitor. Quando você mostra tudo com a mesma intensidade, o leitor perde a capacidade de distinguir o que é importante do que não é.
Showing eficiente é seletivo. Os momentos que recebem cenas densas e detalhadas são sinalizados como importantes. Quando tudo recebe o mesmo tratamento, nada parece importante.
Mostrar a conclusão em vez de os elementos
Existe uma versão de showing que ainda entrega a conclusão pronta — só entrega de forma mais elaborada.
Telling direto: “Ela estava com ciúme.”
Pseudo-showing: “Os olhos dela percorreram a sala até encontrar os dois juntos, e algo dentro dela se fechou de um jeito que ela reconhecia muito bem.”
A segunda versão é mais elaborada, mas ainda está entregando a conclusão (“algo que ela reconhecia” sinaliza ciúme claramente). Showing real entregaria os elementos — o que ela viu, como o corpo dela respondeu especificamente, o que ela fez a seguir — sem nomear o que isso significa.
Confundir showing com descrição longa
Mais descrição não é mais showing. Um parágrafo longo descrevendo o ambiente de uma cena pode ser puro telling se os detalhes escolhidos não revelam nada sobre personagem, emoção ou tensão narrativa.
Showing não é quantidade de descrição — é qualidade de detalhe. Um único detalhe certo revela mais do que dez detalhes genéricos.
Exercícios Práticos
Exercício 1: A Tradução
Pegue cinco frases de telling do seu texto atual (ou escreva cinco intencionalmente). Para cada uma, escreva uma versão em showing usando comportamento, detalhe específico ou subtexto de diálogo. Depois compare: qual das duas versões é mais eficiente para aquele momento específico da narrativa? Às vezes o telling original vai ganhar — e isso é uma descoberta legítima.
Exercício 2: A Cena Sem Adjetivos de Emoção
Escreva uma cena de conflito emocional intenso — uma briga, uma despedida, uma revelação — sem usar nenhum adjetivo ou substantivo que nomeie diretamente emoção. Proibido: raiva, tristeza, medo, ansiedade, amor, ódio, nervoso, feliz, aliviado. Só comportamento, diálogo e detalhe físico específico. Esse exercício força o músculo do showing de uma forma que nenhuma explicação teórica consegue.
Exercício 3: O Mesmo Momento, Três Personagens Diferentes
Escreva o mesmo momento — uma pessoa chegando a uma festa onde não conhece ninguém — do ponto de vista de três personagens com estados internos diferentes: um que está animado, um que está com medo social, um que está de luto por algo não relacionado. Sem nomear os estados internos. Só o que cada um nota, como cada um se comporta, o que cada um pensa sobre o ambiente. A diferença entre as três versões vai mostrar como ponto de vista e estado interno se tornam showing quando trabalhados juntos.
Exercício 4: Reescreva uma Cena Clássica
Pegue uma cena de um livro que você conhece bem — uma cena que usa telling — e reescreva em showing. Depois compare com o original. O que o autor original escolheu contar em vez de mostrar? Por quê? Essa análise vai revelar decisões de craft que ficam invisíveis na leitura normal.
Show, Don’t Tell É Sobre Confiança
No fundo, o princípio inteiro se resume a uma coisa: confiança no leitor.
Quando você conta, você está assumindo que o leitor precisa de ajuda para interpretar o que está acontecendo. Quando você mostra, você está assumindo que o leitor é capaz de fazer as conexões — e que o prazer de fazer essas conexões é parte da experiência de ler.
Escritores que explicam demais frequentemente fazem isso por insegurança: medo de que o leitor não entenda, medo de que a cena não seja suficientemente clara, medo de que o ponto não chegue. Esse medo é compreensível. Mas o antídoto não é explicar mais — é construir melhor.
Quando a cena está bem construída — com os detalhes certos, o comportamento certo, o subtexto certo — o leitor entende. Não porque você explicou, mas porque você criou as condições para a compreensão emergir.
E quando o leitor chega lá sozinho, a história deixa de ser algo que ele leu e se torna algo que ele viveu.
Essa é a diferença que show, don’t tell faz quando aplicado com inteligência. Não é uma regra de gramática — é uma filosofia de como escritor e leitor dividem o espaço da narrativa.
Perguntas Frequentes
Show, don’t tell vale para todos os gêneros? O princípio é universal, mas a aplicação varia. Ficção literária tende a usar showing com mais intensidade e consistência. Thrillers e narrativas de ritmo acelerado usam telling estrategicamente para comprimir tempo e avançar na ação. Romances de gênero equilibram os dois de acordo com o ritmo que o gênero exige. O princípio não muda — a proporção e os momentos de aplicação variam.
E a narração em primeira pessoa? O narrador pode “contar”? Sim, e frequentemente deve. Narradores em primeira pessoa têm voz, perspectiva e o direito de comentar sobre o que está acontecendo. Um narrador em primeira pessoa que nunca comenta, nunca interpreta, nunca reflete — só descreve — perde boa parte do que torna a primeira pessoa rica. O que muda é que o telling em primeira pessoa precisa ser da voz do narrador, não do autor explicando a cena por baixo do pano.
Como saber se uma cena tem showing suficiente? Pergunte: o leitor conseguiria chegar às conclusões emocionais e dramáticas importantes desta cena sem que eu as declare explicitamente? Se sim, o showing está funcionando. Se não, identifique quais conclusões estão sendo entregues prontas e trabalhe os elementos que permitiriam ao leitor chegar lá.
Show, don’t tell se aplica à escrita de não-ficção? Absolutamente. Jornalismo narrativo, memórias, ensaios pessoais — todos se beneficiam do princípio. A diferença é que na não-ficção você está trabalhando com eventos reais, então o showing exige ainda mais atenção aos detalhes concretos e específicos que você realmente tem disponíveis.
