E seus batidões cariocas irritantes, músicas de corno e vozes esganiçadas.
O karaokê virou ofensakê.
O patriarca começou a gritar que quem dormia cedo era galinha e que podiam continuar chamando a polícia porque não ia adiantar nada. Ah. Claro. Ameaçavam continuar “cantando” até cinco horas da manhã. E logo começam a cantar “À sua Maneira”, do Capital Inicial pela quarta vez.
Como eu disse, não era fácil quando eu morava no Havaí.
Há muitos anos deixei o Havaí para retornar ao Nova Suiça. A minha casa tinha um problema sério de uma igreja evangélica empolgada. Quando Jesus descia, os crentes piravam. O baterista socava a bateria. Todo mundo começava a cantar como se não houvesse amanhã.
Lembro quando Jesus aloprou tanto que até meu vizinho pistolou e colocou um álbum ao vivo do Pearl Jam no talo. Estava tão alto que me perguntei se não tinha morrido ou batido a cabeça. De repente, os crentes sumiram e só ficou o Eddie Vedder falando que eu ainda estava vivo.
O segurança da igreja até ficou de braços cruzados no peito e queixo erguido, meio que encarando o vizinho puto, que deixou o som alto até o fim do culto. Lembro de terem esmurrado a porta dele, tocado interfone e nada da música abaixar.
Os cantores de Jesus nunca mais cantaram tão alto depois desse dia.
Agora eu moro em outra parte do Nova Suiça. Não tenho igreja evangélica perto. Tenho uma escola demoníaca com um barulho ensurdecedor nos horários do intervalo e/ou educação física. Tudo bem. Não me incomoda.
Tenho um ponto de tráfico de drogas na minha frente. O que seria muito útil se eu ainda fosse muito maconheiro. Além disso, nem sei como iria abordar os caras. “Colé, zin! Tem um verdin aí?”. Algo assim. Vai saber. De qualquer forma, não me incomodo com esses caras. Nem quando de madrugada alguém buzina ou bate no portão de ferro deles me assustando. O empreendedor não tem hora de descanso, sabe como é.
Do outro lado tem uma família grande cheia de criança, adolescente e adultos. A cada dois, três meses, esses filhos da puta decidem comemorar o aniversário amaldiçoado de um deles. Bando de corno. Os caras me socam uns batidões que deixariam a minha irmã aterrorizada. E ela aterroriza nos bailes de batidão carioca. Hoje, especialmente, os filhos da puta estão cantando.
Devem ser umas vinte crianças cantando fora do ritmo, mas como se estivessem na porra do show. Elas estão dançando no passeio com a garagem aberta, cheia de mesas e cadeiras com os adultos enchendo o rabo de linguiça. A música parece vir da minha sala. É impossível ver qualquer coisa e não se assustar achando que uma criança abençoada brotou na casa cantando:
“Você subia, descia, subia, descia, só na reboladinha.”
Lembrei da época dos fãs do Capital Inicial no Havaí.
Lembrei da banda favorita de Jesus.
Senti saudade.
