Dá para criar arte com inteligência artificial?

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Publicado originalmente em Tullio Dias – abr 01, 2025

Você já fez sua versão em estilo Ghibli?

Se respondeu não, talvez esteja por fora da trend mais quente de todos os tempos… da última semana.

Até quem renega a inteligência artificial já brincou de transformar fotos em ilustrações com o traço do estúdio responsável por A Viagem de Chihiro. Com sorte, depois de uns 10 minutos, recebeu uma bela imagem para abastecer o tanque do pertencimento digital.

Eu também entrei na onda. Pedi pra virar um personagem de South Park e o desgraçado do GePeTo me transformou no pai do Eric Cartman. A visão quase me fez considerar um regime emergencial.

Mas vamos lá.

A supostamente inofensiva trend abriu uma discussão ética e ideológica:
👉 É certo usar IA para replicar o trabalho de outras pessoas?
👉 Conteúdo feito com IA pode ser considerado arte?

Bom… Inteligência Artificial não é modinha. Nem o futuro. É o presente. Ou você aprende a usar, ou vai ser atropelado por quem já sabe. Não adianta odiar o jogador quando o time inteiro já entrou em campo.

Recentemente, mostrei a experiência que tive usando IA pra gerar capas do meu próximo projeto. O que talvez você não saiba é que trabalho com marketing digital e uso o ChatGPT todos os dias. Ele é basicamente meu estagiário — só que sem horário, sem salário e sem CLT. Eu exploro o GePeTo por mais de 12h por dia.

Algumas pessoas ainda torcem o nariz. Dizem que os textos feitos por IA são ruins.

Ignoram dois detalhes importantes:

  1. Elas próprias não sabem usar a ferramenta.
  2. Vivem numa realidade alternativa onde fingem que a maioria dos textos feitos por humanos não são uma bosta.

Se você discorda, desculpa. Você vive numa bolha. Imagino que receba mensagens do Hemingway no WhatsApp, directs do Machadão no Instagram e que seus amigos se comuniquem com metáforas renascentistas.

Essa semana, a trend do estúdio Ghibli com o ChatGPT e outros geradores de imagem explodiu. Vi uma porrada de postagens indignadas com esse “plágio”, lamentando a falta de reconhecimento dos artistas — todas, claro, usando imagens feitas por IA. Porque ninguém quer ficar de fora da trend, né?

No meu entendimento (que pode estar errado, mas é meu), essa treta é uma briga de gigantes. O ilustrador original já recebeu pelo trabalho. Isso não tem nada a ver com ele.

Vou mesmo perder meu tempo defendendo um lado ou outro? Nem fodendo. Prefiro esperar sair um documentário sobre o assunto… e baixar ilegalmente depois.

E aí entra o segundo ponto.

Um amigo da Natália, o Clayton Vilaça — guitarrista da Othon Palace — postou algo que me pegou de jeito. Ele achou “fofo” ver tanta indignação com a IA, considerando que pouquíssima gente se interessa pelo trabalho artístico dele ou de outros artistas independentes. Inclusive, visitem o MV para ler a review do show da banda.

Fica ainda mais incômodo quando você vê os próprios artistas repetindo discurso de revolucionário de Instagram. O Clayton tem um ponto: por que tanto barulho pra defender um “conceito artístico”, mas na hora de apoiar um artista local, ninguém move um dedo?
Não tem curtida.
Não tem comentário.
Não tem compartilhamento.

Nem pra reclamar.

Todo mundo que se aventura como artista ou empreendedor descobre cedo: não dá pra depender de amigos ou familiares.
Eles não vão ouvir.
Não vão ler.
Não vão comprar.
E tá tudo bem. Mas não deixa de ser curioso ver tanta crítica contra uma simples trend nas redes sociais.

Enfim, vamos à pergunta que te trouxe até aqui:

Afinal, IA pode criar arte?

Segundo um pensador de cabelo verde no Instagram, a resposta é “não”. Ele até ensaiou um mantra: “Repita comigo: IA não cria arte.”

Certo. De fato, quando o meu ChatGPT começar a operar sozinho, aí sim eu vou me preocupar. Felizmente, ele só faz o que eu mando — diferente de muitos humanos.

Demorei anos pra aceitar que música eletrônica era música. Mas é. Assim como o batidão carioca é música. A gente pode debater se são boas ou não, mas que é arte… é.

Abri essa discussão no grupo do Cinema de Buteco. Alguém argumentou citando o jovem descolado do Instagram:
“Arte precisa contar uma história.”
Perguntei se fanfic é arte.
Responderam que sim.

Perguntei se fanfic é original.
Não.

Perguntei se se apropria de material de terceiros.
Sim.

Perguntei se pode ter qualidade e ser surpreendente.
Também sim.

Então por que uma criação com IA — quando guiada por alguém com intenção e propósito — não pode ser arte também?

Dizer que IA “não tem história” é esquecer que ela vem de uma longa linha de avanços humanos em linguagem, matemática, filosofia, programação e criatividade. É como desmerecer uma pintura digital porque não tem cheiro de tinta a óleo.

O que torna algo arte não é a ferramenta usada, e sim a intenção, a mensagem, o contexto e o impacto.
Um humano pode criar arte com IA — do mesmo jeito que já criou com uma câmera, uma tesoura, ou até uma privada (alô, Duchamp).

Se a arte é uma forma de expressão, por que limitar as ferramentas?

A gente faz barulho demais por muito pouco.
E defende pontos de vista baseados apenas em… opinião.
Vou te dar a real: nossa opinião, muitas vezes, é tão boa quanto os textos ruins dos quais a gente vive reclamando.